
Quando a leitura vira amizade e descoberta
Por: Sandro Miranda
Durante muito tempo, a leitura foi vista como algo solitário: apenas uma pessoa, um livro e um cantinho tranquilo. Mas isso está mudando. Cada vez mais gente está descobrindo que ler em grupo pode transformar completamente a experiência. Uma pesquisa divulgada pela Câmara Brasileira do Livro (CBL) informou que o Brasil ganhou 3 milhões de novos leitores em 2025.
O levantamento constatou que 18% da população brasileira comprou pelo menos um livro no ano passado. Ainda é pouco, se comparado com outros países, mas reforça o interesse pela leitura. Quem nunca ficou curioso com a indicação literária de um amigo ou quis ler junto com ele?
Os chamados “clubes do livro” cresceram nos últimos anos e conquistaram crianças, jovens e adultos. Em escolas, bibliotecas, cafeterias, igrejas e até na internet, leitores se juntam para conversar sobre histórias, trocar opiniões e descobrir novos pontos de vista.
A criadora de conteúdo digital Patricia Silveira faz parte de um desses clubes. Todo mês, ela e um grupo de amigas escolhem um livro e se reúnem presencialmente para falar sobre ele. Cada encontro é regado de biscoitos, bolo, suco e muitas risadas. Além disso, elas fazem brindes temáticos, de acordo com o enredo da obra. “Participar de um clube do livro é descobrir que a leitura não precisa ser solitária; ela se transforma quando é compartilhada”, diz ela.
A ideia parece estar mais forte do que nunca: até a Academia Brasileira de Letras (ABL) lançou recentemente o seu próprio clube de leitura, mostrando que a prática ganhou espaço inclusive entre grandes nomes da literatura brasileira. Serão cinco encontros com a participação de alguns dos famosos “imortais” – como são conhecidos os escritores que integram a instituição. O primeiro aconteceu em maio e teve como tema a obra ‘Manifesto Regionalista’, de Gilberto Freyre. A próxima roda de conversa ocorrerá no dia 17 de junho, com a jornalista e acadêmica Miriam Leitão, e será sobre o livro ‘O Ato e o Fato’, de Carlos Heitor Cony.
Ler aproxima pessoas
Muitos começam a participar desses clubes porque gostam de ler, mas permanecem por outros motivos: conexão com diferentes leitores, conversas sobre personagens, finais surpreendentes – tudo isso cria um sentimento de pertencimento. É como assistir ao mesmo filme com amigos e, depois, passar horas comentando cada detalhe, só que com livros. A leitura coletiva também ajuda os tímidos a interagirem socialmente, afinal, sempre existe um assunto em comum: a história lida naquele mês.
Para especialistas em educação, essa interação estimula a criatividade, o pensamento crítico e a capacidade de ouvir perspectivas diferentes. “A gente fala tanto sobre o excesso de telas e o quanto isso tem sido nocivo, então é muito importante ver pessoas reunidas socializando”, diz a professora de Língua Portuguesa Vânia Rodrigues, destacando que eventos desse tipo possuem um benefício duplo: “Você se sente motivado a ler e, em seguida, quer falar sobre aquela história com alguém, contar o que sentiu e ouvir a opinião do outro”.
Todo mundo lê o mesmo livro, mas ninguém pensa igual
Uma das partes mais interessantes dos clubes de leitura é perceber que duas pessoas podem interpretar a mesma narrativa de maneiras distintas. Enquanto um ama determinado personagem, outro pode rejeitá-lo. E está tudo bem!
Essa troca ensina algo importante: respeitar opiniões diferentes sem transformar a conversa em briga. Em tempos de discussões rápidas nas redes sociais, os clubes do livro funcionam como espaços de diálogo e escuta. Muitas vezes, um leitor percebe detalhes que outro não viu. Assim, a leitura fica ainda mais envolvente.
O crescimento dos clubes também acompanha mudanças no comportamento dos indivíduos. Em um mundo cheio de telas, vídeos rápidos e notificações o tempo inteiro, uma parcela da população passou a buscar experiências mais profundas e humanas.
Ler junto ajuda a manter o hábito da leitura vivo. Saber que haverá uma conversa marcada no fim do mês pode servir como incentivo.
Além disso, os encontros misturam cultura e amizade – duas coisas de que muita gente sente falta na correria do dia a dia. E, talvez, esta seja a combinação que está fazendo tantos voltarem a se apaixonar pelos livros: a liberdade de ler onde, quando e com quem quiser!





