Como a sensação de insegurança afeta o seu cérebro?
Por: Sandro Miranda

Como a sensação de insegurança afeta o seu cérebro?
“Se correr, o bicho pega; se ficar, o bicho come.” O ditado popular reflete a difícil realidade enfrentada hoje por milhões de jovens brasileiros. Na rua, a sensação de insegurança a cada esquina. Dentro de casa, os riscos de ameaças virtuais ao se conectar à internet. Essa sensação de insegurança não é “mimimi”.
De acordo com especialistas, o cérebro entra no “modo vigilância” e fica mais protetor quando interpreta uma ameaça constante. O problema é que essa ação consome recursos mentais importantes para atividades como concentração, aprendizado, memória e tomada de decisões. Como o cérebro dos pré-adolescentes ainda está em desenvolvimento, ele pode ser especialmente sensível a esse tipo de situação.
Em 2024, mais de 1,5 milhão de estudantes brasileiros faltaram às aulas por sentirem medo no trajeto entre a casa e o colégio. A sensação de insegurança atinge o dobro de alunos da rede pública em relação à privada: enquanto 13,8% dos estudantes de colégios públicos faltaram às aulas por receio no trajeto, o índice cai para 5,4% entre os alunos da rede particular. Os dados são da mais recente Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) e foram divulgados no primeiro trimestre de 2026 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
O que isso tem a ver com a internet?
Embora o estudo tenha analisado a sensação de insegurança de maneira ampla, muitos especialistas apontam que o ambiente digital pode contribuir para esse sentimento. Um adolescente que presencia discussões agressivas todos os dias, recebe mensagens ofensivas ou é exposto constantemente a conteúdos violentos pode desenvolver a impressão de que o mundo é um lugar mais ameaçador do que realmente é.
“Essa exposição precoce e excessiva de crianças e adolescentes impacta diretamente a formação da identidade, pois, nesse período, o sujeito ainda está em processo de descobrir quem é e quais valores deseja construir”, afirma a psicóloga Raphaella Fróes. Segundo ela, isso tende a causar vulnerabilidade emocional significativa. “Como consequência, podem emergir sentimentos de insuficiência, processos ansiosos e, em alguns casos, quadros depressivos”, alerta.
Atenção que protege
Os pais, como responsáveis, podem ajudar em situações diversas, nas quais o adolescente não compreende o tamanho da exposição, como é o caso da internet. Algumas atitudes simples podem fazer toda a diferença:
- Conversar frequentemente sobre o que os filhos veem e fazem na internet.
- Estabelecer horários equilibrados para o uso de telas.
- Incentivar atividades presenciais, esportes e momentos em família.
- Ensinar a identificar golpes, fake news e situações de risco.
- Estimular amizades saudáveis e redes de apoio.
- Buscar ajuda profissional quando houver sinais persistentes de ansiedade, isolamento ou tristeza.
Um estudo publicado na revista científica Developmental Cognitive Neuroscience analisou dados de quase 12 mil jovens e observou que quem se sentia mais inseguro apresentava mais sintomas de ansiedade e depressão, além de pior desempenho em testes cognitivos. Os próprios pesquisadores destacam que fortalecer vínculos sociais, criar rotinas estruturadas e reduzir a exposição excessiva a conteúdos negativos podem contribuir para aumentar a sensação de segurança e bem-estar dos jovens.




