
Phubbing: quando a tela atrapalha a conversa
Por: Sandro Miranda
O celular, o tablet e a televisão estão presentes em muitos lares. Mas o quanto isso afeta as famílias? Existe um comportamento social recente chamado phubbing – uma mistura das palavras inglesas phone (telefone) e snubbing (ignorar). É quando alguém deixa de prestar atenção em quem está por perto para olhar a tela do aparelho eletrônico. Se isso ocorre com frequência entre pais e filhos, por exemplo, especialistas chamam o fenômeno de tecnointerferência. Nesse caso, a tecnologia atrapalha as interações humanas.
Acredite, isso pode afetar até o desenvolvimento da linguagem em crianças entre 12 e 36 meses de idade, uma fase crucial para o aprendizado da fala. É o que afirma uma pesquisa publicada na revista científica JAMA Pediatrics. O estudo acompanhou 220 famílias e utilizou uma tecnologia capaz de registrar sons do ambiente por, aproximadamente, 16 horas por dia. Os cientistas mediram:
– Quantas palavras os adultos falavam perto da criança.
– Quantos sons ou balbucios os pequenos produziam.
– Quantas conversas aconteciam entre pais e filhos.
Os resultados evidenciaram que, quanto maior o tempo de tela, menor a quantidade de interação verbal entre adultos e crianças. Apesar de os pequenos parecerem mais calmos na frente do celular, o efeito a longo prazo pode ser bem diferente. “O excesso de telas aumenta a ansiedade infantil porque sobrecarrega o cérebro com estímulos, reduz o tempo de brincadeiras e de convivência familiar, além de prejudicar o sono”, alerta a psicóloga Sandra Machado.
Por que a conversa é tão importante?
Nos primeiros anos de vida, o cérebro da criança está se desenvolvendo a pleno vapor. Por isso, ouvir palavras, responder com sons, imitar e participar de pequenos “papos” com adultos são experiências sensoriais fundamentais.
Quando os dispositivos eletrônicos ocupam o espaço dessas interações, ocorre a tecnointerferência: a tecnologia passa a competir com momentos de contato humano que ajudam a desenvolver a linguagem. Isso não significa que qualquer uso de tela seja necessariamente prejudicial. O problema aparece principalmente quando o aparelho digital substitui atividades relevantes, como brincar junto, contar histórias, cantar, conversar durante as rotinas do dia, fazer atividades ao ar livre.
Essas ações são importantes para manter os filhos próximos e equilibrados emocionalmente “porque estimulam a criatividade, fortalecem o corpo, melhoram a coordenação motora, reduzem o estresse, aumentam a sociabilidade e favorecem o contato com a natureza, essencial para o equilíbrio emocional”, completa a Dra. Sandra.
Situações de phubbing dentro de casa:
– O filho quer falar ou mostrar algo, mas os pais estão vendo TV.
– Os pais vão brincar com as crianças, mas não param de mexer no celular.
– Filhos apresentam dificuldade ou desinteresse em expressar seus sentimentos.
– Crianças pedem celular o tempo todo em vez de interagir.
Esses exemplos podem reduzir os momentos de diálogo, justamente os que mais estimulam a comunicação e expressão. Algumas dicas podem ajudar a priorizar interações reais no dia a dia, como reservar um tempo para atividades em família, incluindo brincadeiras com jogos de tabuleiro ou ao ar livre. Além disso, é preciso limitar o tempo de tela, estabelecendo um horário específico para utilizá-la, compreender que os momentos de diálogo são inegociáveis e mostrar atenção genuína aos vídeos ou programas a que os filhos assistem. O ideal é que os pais os acompanhem, mostrando interesse real no conteúdo. Nem sempre adianta pedir que larguem o celular se os adultos estiverem agindo da mesma forma. Eles seguem exemplos e inspirações.
A tecnologia faz parte da vida moderna e dificilmente desaparecerá do cotidiano das famílias. No entanto, evite o phubbing! Cada palavra trocada, cada pergunta respondida e cada brincadeira compartilhada ajuda a construir algo essencial: o desenvolvimento da comunicação, o afeto e a linguagem das crianças.





